Egito eterno
Compreenda o que é magia e aprenda a fazer seus próprios milagres através do amor desinteressado.
... Amoses olhou lentamente um por um, como a dizer que todos lhe eram caros e importantes, abrindo os braços num gesto tão seu quando desejava acolher a todos ao mesmo tempo. E todos sentiram aquele afago consolador e profundo do amor que emanava daquele ser extraordinário. It-Amun a seu lado mantinha os olhos fechados e as mãos espalmadas unidas ao peito, como se estivesse transportado a outro lugar, num estado quase de transe, deixando um leve e bondoso sorriso estampado em sua face.

Depois de alguns momentos os soluços foram cessando e as pessoas foram se acomodando aos poucos ao redor do pátio, sentando-se nos bancos ou no chão, ou ainda encostando-se nas paredes, observadas pelo paciente sacerdote, que a todos olhava complacente. Os trabalhadores pareciam cansados, aturdidos e impotentes.

_ Tempos de grandes mudanças se aproximam filhos meus. Sei bem que não estais acostumados às violências que têm nos assolado nos últimos tempos. Nestas bandas do império, tão longe das fronteiras do sul, a paz é tão mais presente em nossas vidas que terminamos por nos esquecer das tragédias que nossos olhos não veem. _ Amoses se referia ao recente atentado contra sua vida, ainda cercado de mistério e que havia ceifado a vida de outros trabalhadores do grande templo de Amon e também as eventuais escaramuças travadas contra vizinhos e invasores nas terras altas. Sua voz era calma e poderosa ao mesmo tempo. Continuou:

_ Sei que o espanto e a indignação que toma conta de vossas almas é justificado, tendo em vista a aparente gratuidade de tais agressões. Não vos esqueçais, no entanto, que o espírito humano ainda tem uma longa trajetória antes de se igualar aos deuses; antes de compreender que é um com a natureza e com todos os seres; antes de aprender que quando mata seu irmão está matando parte de si mesmo _ fez pequena pausa enquanto seus olhos marejados percorriam a pequena assembleia ali reunida, compreendendo a limitação da maioria.

_ Lembrai-vos, todavia, filhos meus, que também somos responsáveis pelas coisas que nos acontecem. Somos responsáveis, em algum tempo e de alguma maneira, não só pelo que fizemos mas também por aquilo que deixamos de fazer. Na roda das existências vamos nos miscigenando neste mar de almas que brota daquilo que conhecemos por vida e assim aprendendo na medida do possível. Dividimos nosso saber, esteja ele no estágio que estiver, mas também nossos desejos e ambições. São experiências que vamos fazendo. Jardins que vamos cultivando. Nem sempre somos os melhores jardineiros, mas fazemos o que podemos. E o que podemos é o suficiente. E quando partimos deste plano limitado no qual percebemos viver, outro jardineiro se encarregará de nossa parte do serviço. E outro e mais outro nesta obra incessante. Isto não significa que somos dispensáveis, mas nos mostra o quão pequenos ainda somos, embora nos achemos tão grandes e únicos. Podemos até parecer únicos, mas o passar dos dias mostra que fomos apenas importantes aqui e ali. E a vida continua como deve ser.

Amoses ficou pensativo por uns instantes antes de continuar. Sua voz era de ternura absoluta.

_ Talvez devêssemos nos preocupar não apenas em deixar legados palpáveis sobre as terras, mas em preparar nossas consciências para que elas estejam disponíveis e repletas de coisas boas para repartir com todos aqueles que por nós buscarem depois que partirmos. Assim como fazem os deuses.

Sorriu suavemente quando seu pensamento voltou-se para seu adiantado tão valioso.

_ Nosso querido amigo fez sua parte do jardim que lhe cabia de forma primorosa, não achais? Não haverá alguém ávido e feliz por continuar seu trabalho? _ perguntou ainda sorrindo, embora fosse evidente a dor em sua alma.

Muitos sorriram enquanto tornavam a derramar pesadas e silenciosas lágrimas. Sim, ele tinha cultivado a terra com amor e generosidade. As flores que dela brotavam e ainda brotariam continuariam a encantar a todos.

E Amoses prosseguiu:

_ E não esqueçais que sua consciência está tão florida quanto o jardim que ele deixou, o que permitirá a todos que quiserem continuar a usufruir de sua sabedoria e de sua doce alegria. E quando um dia ele voltar, estará ainda mais sábio, pois se dará conta que adquiriu um pouco da sabedoria de cada um daqueles que o amam e se dispuseram a fazer juntos essa longa caminhada. Na troca incessante entre essas consciências o tempo, o espaço e as dimensões não existem meus filhos e, desta forma, quando um dia nosso companheiro despertar novamente para aquilo que chamamos vida, todo o amor e conhecimento que tiver sido trocado com ele despertará da mesma forma. E, se bem o conhecemos, um largo e lindo sorriso se abrirá em seu rosto tão logo ele se lembre de seu jardim, de nós e de nosso amor. Num instante ele correrá atrás de suas ferramentas para continuar seu trabalho e o ciclo da vida se completará mais uma vez.

Nesta altura muitos choravam copiosamente enquanto abraçavam e eram abraçados pelos mais próximos. Enquanto isso o sumo sacerdote continuou uma vez mais:

_ E assim como ele todos os outros que já partiram plantaram seus jardins. Nossos pais, nossos filhos, nossos amigos e também aqueles que acham ser nossos inimigos. Cada um do seu jeito. Então todos estão disponíveis para ajudar ou serem ajudados, pois, no tempo devido, também despertarão novamente, enriquecidos com os pedacinhos de tantas almas. Almas que gostam das mesmas flores meus filhos amados. _ fez pequena pausa antes de concluir:

  _ Lembrai-vos sempre que a beleza das flores não combina com ódio e vingança. Sua beleza combina unicamente com o perdão irrestrito àqueles que ainda sequer encontraram as sementes para lançar à terra.

Amoses calou-se, voltando-se para It-Amun, que agora olhava o parceiro do mesmo jardim embevecido com suas doces palavras. Sorriu, abraçou-o pelo ombro e também se dirigiu aos presentes:

_ Não pensais meus amigos que crimes devam ficar impunes; apenas deixai essa função para quem de direito. Um dia a história vos dirá os porquês dessas perversidades terem sido cometidas aqui e também quem as praticou. Nesse dia veremos uma vez mais como ainda somos pequenos, como vos disse este meu irmão querido. Ainda existem partes de nós, esses que chamamos de maus, que ainda são capazes de fazer coisas inimagináveis de crueldade e descaminho. Desta forma, a ausência do bem ainda está escondida em nossas almas e uma forma de combate-la é não fazendo eco com os clamores de justiça e vingança. Não há injustiça pois tudo está como deve ser e não deve haver vingança para não reacender essa fagulha do passado dentro de nós. A punição aos culpados se dará de alguma forma. Talvez além de nossas vistas. Não vos preocupeis. _ concluiu com brandura.

Amoses reassumiu a palavra.

_ Podeis chorar filhos queridos, mas aprendei com o tempo a transformar a tristeza que mata em saudade que vivifica.

A seguir, erguendo os braços aos céus o velho sacerdote abençoou a todos com um último conjuro:

_ Que Amon e os deuses transformem nossas dores na luz que haverá de iluminar nossos caminhos nesta jornada. Paz a todos os seres.

_ Que assim seja. _ rezaram todos que ainda tinham voz em meio à tão fortes emoções.

_ Porque assim será. _ rezaram os sacerdotes presentes, como mandava a tradição.

Um novo tempo haveria de chegar nos séculos que se seguiriam enquanto os homens daquele império se tornavam lentamente senhores de seus próprios destinos. Um tempo onde os instintos humanos começariam a falar cada vez mais alto, como se os deuses jamais tivessem passado sobre aquelas terras.
...
Leia abaixo parte do capítulo 12 - Tempos de aprendizado.
Amoses, o sumo sacerdote do império, fala aos trabalhadores do grande templo
de Atom, na antiga capital Om quando da tragédia que se abateu sobre aquelas almas.